sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Lucro bordado à mão

Descoberta pelo Fundo de Investimento Social ELAS, a cooperativa “Bordadeiras da Coroa”, sediada em uma das regiões mais violentas do rio de janeiro, conquista o mundo da moda — e dos negócios.

A vida das oito mulheres que integram a cooperativa Bordadeiras da Coroa pode ser dividida em antes e depois de um certo vestido de shantung de seda. O modelo em quatro cores, que elas costuraram e enfeitaram com aplicações douradas e prateadas, foi arrematado em leilão beneficente, em outubro de 2009, por R$ 163 mil. Quem assinou o cheque? O empresário Eike Batista, o que ajudou a dar mais visibilidade ao trabalho. O dinheiro ainda repousa na conta bancária do grupo, mas, em breve, começará a financiar uma senhora reforma no ateliê, uma casinha simples, encarapitada no alto do Morro da Coroa, uma das comunidades mais violentas na região central do Rio de Janeiro. “Não sei pra quem ele comprou o vestido, mas deve ser uma mulher muito magra!”, diverte-se a coordenadora da cooperativa, Elza Santiago, 49 anos.

O grupo existe formalmente desde 2006, quando foi selecionado, em concurso, para receber apoio do ELAS — Fundo de Investimento Social, entidade sem fins lucrativos voltada para a promoção da atuação das mulheres. Havia 50 projetos inscritos e apenas 15 foram escolhidos. Além do capital para montar o ateliê — R$ 4.300, aplicados na compra de duas máquinas de costura e matéria-prima — as oito mulheres receberam capacitação em direitos humanos, comunicação, marketing, administração de recursos e elaboração de projetos. “Ninguém esperava tanto retorno. Os produtos são lindos e têm um apelo fashion que logo conquistou as empresas e os profissionais da moda. Elas ficaram famosas”, conta Veronica Marques, gerente de Comunicação e Desenvolvimento do ELAS. “A Elza se tornou uma verdadeira mulher de negócios.”


VIDA NOVA Quando aceitaram o convite para confeccionar um vestido para a mostra Fashion Frequência 2.0, patrocinada pela operadora de telefonia Oi, as bordadeiras conquistaram, enfim, independência financeira — cada uma recebe, em média, três salários mínimos mensais


A entrada oficial das Bordadeiras da Coroa no mundo da moda ocorreu em 2007, na edição de inverno do Fashion Rio — na época, a artista plástica Rute Casoy expôs um varal de aproximadamente 50 metros, com poemas de sua autoria, bordados por elas em retângulos de linho branco, intercalados com bonecas de pano, colchas e peças de vestuário. Foram parar nas páginas de revistas e jornais e, de lá para cá, cada aparição em público gera mais notoriedade — e mais encomendas. “Elas passaram a receber convites para customizar camisetas em eventos e bordar vestidos para celebridades”, comemora Veronica. Agora, os produtos da Coroa começam a ultrapassar as fronteiras do país. Em junho deste ano, 60 banners bordados foram distribuídos como brindes vip na abertura do Fórum de Organizações Feministas para a Articulação do Movimento de Mulheres Latino-Americanas e Caribenhas, em Brasília — a ideia partiu da ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire. “Nossos bordados estão viajando a América Latina”, Elza mal pode acreditar.

Para mulheres que têm histórias como a dela, é de fato um feito e tanto. Nascida em Lagoa Grande, na Paraíba, onde aprendeu as artes de agulha e linha, Elza mudou-se para o Rio de Janeiro aos 19 anos, sozinha, para tentar a vida. Passou por vários empregos até se casar, aos 28. “Virei dona de casa e criei meus dois filhos, até que meu marido me deixou, sem um tostão. Fiquei sem rumo e sem qualquer perspectiva de trabalho.” A luz no fim do túnel apareceu em 1995, quando a prefeitura carioca levou o projeto Mulher Ação à comunidade. Durante um ano, Elza e outras 39 mulheres frequentaram a sala de aula na esperança de aprender um ofício, recebendo ainda uma bolsa-auxílio de R$ 100 mensais. “Era minha única renda”, ela lembra. “Só que todas pensavam que sairiam dali para trabalhar, o que não aconteceu. Em 1996, o curso terminou e ficamos na mesma, sem dinheiro de novo. E decidimos nos unir por nossa própria iniciativa.”

Mas para fazer o quê? Era preciso descobrir as habilidades de cada uma. “Algumas sabiam bordar e costurar, mas outras não, foram aprendendo na prática”, conta. O grupo, então formado por dez vizinhas (quase todas mães chefes de família, como Elza), passou a se encontrar periodicamente nas casas, na associação de moradores da favela, na igreja. O resultado do trabalho conjunto era vendido aos poucos, um dinheiro pingadinho que não resolvia o problema de ninguém. Foi quando surgiu a oportunidade de inscrever a iniciativa no concurso do fundo ELAS. “A gente nem sabia como elaborar um projeto, mas o jeito era tentar. Quando fomos aprovadas, quase enlouquecemos de felicidade.”

Treze anos depois, quando aceitaram o convite para confeccionar o tal vestido para a mostra Fashion Frequência 2.0, patrocinada pela operadora de telefonia Oi, as bordadeiras nem imaginavam que teriam a vida transformada de novo. O sucesso da peça, criada em parceria com as estilistas Amanda Haegler e Maria do Rosário, da carioca Q-Guai, permitiu que as oito integrantes finalmente conquistassem a independência financeira — cada uma recebe três salários mínimos mensais, em média — e pudessem planejar o futuro. O ateliê será ampliado na reforma, para que outras mulheres da comunidade tenham a chance de aprender a bordar. Na opinião de Veronica, contudo, as conquistas de Elza, Marli, Neli, Marinalva, Cecéia, Cilena, Vera e Regina vão muito além disso. “Mais do que renda, elas hoje têm uma carreira.”

Fonte: Revista Pequenas Empresas Grandes Negócios


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