A renda quilométrica exige a dedicação de nada menos que 40 rendeiras de todas as idades. A almofada de rendar, instalada no centro, nunca fica sozinha: as rendeiras se revezam nas horas vagas para terminar o trabalho.

Uma das artesãs envolvidas, Brena Pires, tem apenas 19 anos, 12 dos quais dedicados à feitura da renda de bilro para ajudar no sustento da família. Segundo ela, assim como a maioria das rendeiras de Aquiraz, mesmo que algumas não trabalhem com artesanato, todas dominam a arte. “Eu aprendi com a minha avó, todo mundo aqui aprende com a vó, com a mãe, com uma tia, com uma madrinha... Todas as mulheres da minha casa sabem fazer (renda), e eu gosto do que eu faço, eu cresci aqui”, conta.
Artesanato é fundamental para a economia local
A tradição das rendas e bordados é antiga no litoral cearense. Em Aquiraz, o turismo passou a mudar a face do município a partir da década de 1980, mas até hoje, a maioria da população vive da pesca e do artesanato.

Fazer as peças é uma espécie de ritual para que as mulheres esperem seus maridos jangadeiros voltarem do mar. “Aqui é a mulher no bilro e o homem no mar, pescando”, explica a artesã Rosimeire Pacheco, de 37 anos, que também borda desde os sete.

O centro, também conhecido como Casa das Rendeiras, funciona desde 2001, com 72 lojinhas que comercializam além das rendas de bilro, filé e renascença; bordados em ponto cruz; redes de dormir; roupas bordadas (boleros, casacos, vestidos, saias, blusas, camisetas e saídas de praia) e iguarias, tais como castanhas e doces.

A renda também forma uma cadeia de negócios que depende deste centro. Cada artesã recebe a ajuda de inúmeras outras parentes e amigas, que tecem nas suas casas e repassam para as que têm boxes. Rosimeire explica que essa divisão é necessária para produzir as peças com maior rapidez, já que as peças são feitas à mão e exigem uma dedicação que não se sustenta com o preço das peças.

Por exemplo: uma toalha de mesa para oito pessoas em renascença – a tipologia mais complexa e que utiliza apenas linho, nunca algodão - demanda um ano para ficar pronta, mas é comercializada a R$ 1,5 mil. Mas lá podem ser encontradas peças para todos os bolsos, como, por exemplo, um conjunto com uma dúzia de apoios para copos a R$ 10.
Um pouco da história
A renda faz parte do vestuário há séculos e, durante muito tempo, foi artigo de luxo. O desejo em torno da renda surgiu ainda no século XVI, quando a princesa de Florença (Itália) casou-se com o rei da França, Henrique II, e levou para o corte de Paris as luxuosas rendas confeccionadas em Veneza e Florença, tornando-as famosas em toda a Europa e nas suas colônias, dentre elas, o Brasil.

De acordo com o consultor e professor de moda Ricardo Bessa, o tecido delicado perdeu valor agregado ao longo do tempo, sobretudo com o advento da renda feita à máquina, surgida no final do século XVII, mas patenteada apenas em meados do século XIX. “A popularidade da renda caiu no início do século XX, nessa época, raramente era usada e ficou associada à confecção de lingeries. Mais recentemente, voltou com força total à moda, reapareceu em diversas coleções nacionais e internacionais nos últimos tempos, mostrando que é um tecido atemporal”, avalia.